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Para sempre, Celeste Caeiro

Celeste Caeiro ficará para sempre ligada à história da liberdade em Portugal. A revolução de 25 de abril de 1974 só foi “A revolução dos Cravos” porque Celeste decidiu distribuí-los naquele dia, um a um. E, assim, eternizou-se a ligação entre a flor de cor vermelha à mudança de regime sem derramamento de sangue que marcou o fim do Estado Novo em Portugal.

Celeste Caeiro tinha 91 anos. Morreu no dia 15 de novembro no hospital de Leiria, devido a problemas de foro respiratório. Nas redes sociais, a neta Carolina Caeiro Fontela, deixou uma sentida homenagem à avó. Porém, à agência Lusa, lamentou que a avó nunca tenha sido homenageada em vida.

“Para sempre a minha Avó Celeste. Olha por mim”, escreveu Carolina Caeiro Fontela nas redes sociais.

No dia 25 de abril de 2024, a eterna Celeste dos Cravos esteve presente na avenida das Liberdade e protagonizou um dos momentos mais marcantes da celebração. 50 anos depois, distribuiu novamente cravos aos que passavam por ela. Morreu no ano em que se celebrou meio século da revolução que ajudou a batizar. 

Celeste: “Não tenho cigarros mas tenho este cravinho”

Não era florista, como muitos julgam. Celeste Caeiro trabalhava numa cafetaria. No dia da revolução, foi autorizada pelo patrão a levar os cravos que tinham sido comprados para oferecer aos clientes. Da rua Braamcamp, Celeste foi até ao Chiado para perceber o que se passava. Aproximou-se dos militares que estavam concentrados na rua do Carmo e questionou um deles. 

“Nós vamos para o Carmo para deter o Marcelo Caetano. Isto é uma revolução!”, respondeu o militar. E, logo de seguida, pediu-lhe um cigarro. “Não tenho cigarros, mas tenho este cravinho” e colocou a flor no cano da arma. “Estava ali a dar-me uma coisa boa e eu sem nada para lhe dar”, disse este ano ao Diário de Notícias.

Distribuiu cravos desde a rua do Carmo até à Igreja dos Mártires. O gesto foi replicado por muitas outras pessoas e eternizou-se. A revolução de abril ficará para sempre simbolizada com os cravos colocados nos canos das espingardas. O resto da história é conhecida.

O Presidente da República já reagiu à morte de Celeste Caeiro. Numa nota no site da presidência, Marcelo Rebelo de Sousa manifestou tristeza pela morte de Celeste Caeiro. Por isso, anunciou a condecoração a título póstumo da nonagenária.

Até sempre, Celeste Caeiro.

Imagem: Post de @carolinacfontel no X

Liberdade, 50 vezes Liberdade!

Será difícil contabilizar o número exato de pessoas que estiveram presentes na Avenida da Liberdade e na Praça do Rossio. “Havia umas centenas de milhares”, arriscam dizer alguns dos que lá passaram. E muito provavelmente estão certos. Principalmente porque havia tanta gente que a estrada e os passeios tornaram-se pequenos para a força da mensagem que todos quiseram passar. 

Mas, antes disso, o habitual cortejo comemorativo do 25 de abril já arrancava com dificuldades. O extenso aglomerado de pessoas demorou mais de duas horas só para sair da praça Marquês de Pombal. Três horas depois e ainda havia quem estivesse apenas com meia avenida percorrida.

Assim, cumpriu-se a tradição e, este ano, os portugueses aderiram em massa a um dos momentos maiores que assinala a liberdade em Portugal.“25 de abril sempre, fascismo nunca mais”, bem como a célebre senha da revolução “Grândola, Vila Morena” foi o que mais se ouviu durante toda a tarde.

Avenida transbordou de liberdade e emoção.

A maior avenida lisboeta juntou quase todos os partidos, sindicatos, associações e muitos populares. E entre estes, várias gerações. As que viveram a revolução e as que ouvem falar dela pelos pais, tios e avós. Até Celeste Caeiro, imortalizada por ter distribuído cravos vermelhos aos militares em 1974, foi e desfilou numa cadeira de rodas. Tem 90 anos.

Escreveu o jornalista Samuel Alemão do jornal Público: “O meio século da Revolução dos Cravos era razão mais que suficiente para ocupar a Avenida da Liberdade. Mas a sombra da extrema-direita foi o grande agregador. E fê-la transbordar de emoção.”

“Não que tal destoasse de todas as outras 49 prévias celebrações do aniversário do derrube da ditadura.  A diferença foi que, este ano, toda essa espécie de liturgia cívica ganhou novo enlevo, em consequência do contexto político-partidário relacionado com a forte presença de um partido de direita radical populista, o Chega, na Assembleia da República, em resultado das eleições de 10 de Março.”

Citando Chico Buarque: “Foi bonita a festa, pá!”.

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Fotografias: Dalila Fernandes

O futuro é lá atrás

Mais um 25 de Abril, e mais uma vez os mesmos discursos a olhar para trás, para a espuma dos dias e quezílias partidárias actuais. Nada mais, fosse o discurso mais ou menos cuidado, e o protagonista mais ou menos sofisticado.

Em 2004, por altura do 30º aniversário do 25 de Abril, o governo de Durão Barroso alcandorou as celebrações ao slogan ”25 de Abril é evolução”, tentando sair do cerimonial quase fúnebre habitual. Tal sacrilégio não foi perdoado.

Pensar um pouco diferente é sempre ser fascista neste país. A verdade é só uma e a interpretação também. É pobre este nível de ideias e de debate.

Se o 25 de Abril foi o fim de um regime autoritário e esgotado, e significou o fim de uma guerra sem saída, foi também uma lufada rumo à liberdade.

No entanto, passados quase 50 anos, não há ambição nem perspectiva de futuro. Um país economicamente bloqueado, demograficamente envelhecido, fiscalmente asfixiado, politicamente adiado, socialmente anestesiado.

Os agentes políticos vão empurrando as questões com a barriga, esperando mais um pacote de milhões da União Europeia, enquanto vão lançando mão de truques e demagogias várias para entreter a sociedade. E a sociedade, por sua vez, está cada vez mais presa num emaranhado de medidas bem pensantes.

Recentemente ouvi a ministra do Trabalho defender a Agenda do Trabalho Digno, por exemplo, como uma forma de manter e atrair os jovens para o mercado de trabalho nacional. Já pensaram em descer realmente os impostos – para todos os portugueses? Se os cidadãos tivessem melhores níveis de rendimento (e um dos bloqueios é o estrangulamento fiscal), poderiam viver melhor, ter mais filhos (a questão demográfica está aí de forma dramática), ter outros interesses.

Como se sai daqui? Que alternativas há?

Não é agitando bandeiras populistas que tanto jeito dão à simbiose política entre o PS e o Chega. Eles adoram odiar-se, e é do interesse de ambos manter a ficção circense em que se entretêm. Barulho sem conteúdo.

No passado, foi possível haver líderes que olham além da espuma dos dias e ganhar eleições. Curiosamente, são os políticos que sabem em que momentos falar, e quando manter a reserva, que melhores resultados tiveram. Algumas coisas devem saber de consistência política.

Saibamos escolher melhor.

O futuro pode ser lá à frente.

Uma revolução, uma avenida, muitas lutas

O calor que se fazia sentir em mais um abril pós revolução, foi atípico. Ao som de “Grândola Vila Morena”, milhares de pessoas fizeram-se presentes e empunharam cravos, tambores, gaitas de fole, apitos, cartazes, faixas e megafones onde os gritos de ordem de cada grupo eram intercaladas com o clássico de António Escudeiro, “o povo unido jamais será vencido”. Em cada rosto um amigo que pontuava a diversidade. 

A presença dos jovens foi notória em cada um dos grupos. De mãos dadas com os defensores de abril, ficou claro o empenho, a alegria e principalmente a liberdade de estudantes universitários, jovens empreendedores, artistas, ativistas pelo ambiente, pela cultura, pela igualdade de gênero, pela liberdade sexual, pelos direitos dos animais, pela moradia justa, pelo valor das propinas ou simplesmente pelo direito à alegria. 

Crianças andaram livremente a saltitar e a usufruir a liberdade de expressão que foi aquela manifestação. De destacar a família de um rapaz que empunhava uma réplica em lego de um fuzil com cravo no cano. A avó, a mãe, duas crianças e mais uma mulher com necessidades especiais de locomoção à beira da calçada, com seus cravos encarnados na mão, estavam a vibrar e a cantar as velhas canções. Os ideais de abril eram passados às novas gerações e segundo a mãe do rapazinho “é preciso estar presente na democracia”. 

Muitos cartazes em variados formatos. Uns vinham a baloiçar entre as bandeiras e outros vinham presos no corpo. Sempre acompanhados de um certo “orgulho” em carrega-los. As vozes sentiam-se emocionadas e pujantes. Principalmente a dos professores. Vieram desde o Minho até ao Algarve. Vestiram preto em sinal de luto. Pediram fundamentalmente respeito, afinal uma nação valente não se faz sem eles. Acreditam que estar em luta há tanto tempo pelos “6 anos, 6 meses e 23 dias”, além de necessário para categoria, é “pedagógico”. Ensinam aos seus alunos, colegas e também aos vários ministros que “não podemos baixar os braços nunca”. 

O grito “25 de abril sempre, fascismo nunca mais” também ecoou pela avenida abaixo. Muitos foram os cartazes que procuraram lembrar que a democracia se fez e se faz sempre na rua, na escola, na coletividade. Se faz com poesia, afetos, tambores, “pão, saúde, educação e habitação”.  

Não é por acaso que o Primeiro artigo da Constituição Portuguesa, expressa que a soberania do país é “ soberana, baseada na dignidade da pessoa humana e na vontade popular e empenhada na construção de uma sociedade livre, justa e solidária.” Faz-se com consciência e educação, sem deixar espaço para que qualquer movimento que esteja pautado pela falta de liberdade, direitos conquistados e participação popular possa crescer.

São os ideais de abril que “animam a malta”, e que, no encontro com o amigo, no sorriso rasgado da juventude e nos cravos encarnados proporcionam o ‘desfile popular cotidiano’ da democracia.  ​​​​​​​

O paradoxo da liberdade

Ao passarem 49 anos sobre a revolução do 25 de Abril e sobre os 48 anos das eleições para a assembleia constituinte é tempo de refletir sobre o estado do regime democrático, mas também da sociedade em Portugal.

Ao aproximarmo-nos de 50 anos de democracia plena notamos que Portugal é, atualmente, um país em convergência com os índices de desenvolvimento das nações mais desenvolvidas economicamente e socialmente no mundo.

No entanto, durante estes últimos 49 anos, a história do desenvolvimento económico, social e material confunde-se com a história similar da Europa Ocidental e principalmente da União Europeia.

Não nos podemos esquecer que o 25 de Abril, trouxe consigo a independência das antigas Províncias Ultramarinas, por muitos chamadas de colónias, levando à perda de grandes proveitos económicos que as explorações destes territórios traziam a Portugal, e à rápida “reinstalação” de milhões de portugueses no território do Portugal europeu. Uma situação destas fez com que Portugal entre o final da década de 70 e o início da década de 80 enfrentasse um sério risco de bancarrota, o que acelerou a necessidade de entrar na União Europeia, situação que se constatou em 1986 e que abriu a possibilidade e necessidade de entrar no espaço Schengen no início dos anos 90 e na moeda única europeia no dealbar do novo milénio.

Como consequência dessa aproximação aos restantes países da Europa, Portugal obteve um forte desenvolvimento económico, sobretudo ao nível das infraestruturas. No entanto, no campo financeiro nem tudo é maravilhoso. Se utilizarmos alguns dos dados estatísticos da plataforma PORDATA e realizarmos alguns cálculos com os mesmos, verificamos que de 1985 até ao momento, a taxa de inflação média anual é de 4,55 %, (bem mais baixo do que os 8,47 % se fizermos o cálculo de 1974 a 2022), no entanto, a percentagem média de crescimento do rendimento médio bruto anual do trabalhador português de 1985 ao momento é de 2,33 %. Ou seja, pelo menos desde a adesão de Portugal à União Europeia até ao momento, o cidadão português vem perdendo poder de compra. No entanto, não podemos dizer que é uma consequência negativa da democratização da sociedade portuguesa, visto não termos dados para fazer semelhante comparação em períodos anteriores.

Não obstante, o 25 de abril foi um dos marcos mais significativos da história de Portugal, um país e nação que se aproxima a passos largos para os 900 anos de existência.

Trata-se de uma data histórica, não só pela sua dimensão política como pela sua dimensão social.

Dimensão política porque instaurou um novo regime baseado numa nova Constituição (a de 1976). Um novo regime ou sistema político, muito mais democrático e de acesso político do que os anteriores. Um regime onde passaram a existir eleições presidenciais, legislativas e autárquicas que não restringem ideais políticos, ao contrário do Estado Novo que não organizava eleições periodicamente, que aplicava uma pesada censura às ideologias políticas e que controlava ferozmente os resultados eleitorais levando a um regime parlamentar unipartidário no período salazarista e mais tarde a um regime parlamentar pluripartidário, muito segregacionista, durante o período marcelista.

E mesmo em comparação com os regimes da Primeira República e da Monarquia Constitucional, o acesso à vida política mudou radicalmente. Com o 25 de Abril, todo e qualquer cidadão maior de idade, sem deficiências ou incapacidades cognitivas, passou a ter direitos políticos, como o simples voto.

Nas questões sociais, são inegáveis os avanços que o 25 de Abril trouxe à população de Portugal, direitos como a greve ou a manifestação, o facto de não existir censura, de não existir uma polícia política, nem prisões políticas são avanços inegáveis.

Entretanto, passados 49 anos, a sociedade mudou e continua a mudar a um ritmo cada vez mais acelerado, fruto da evolução tecnológica exponencial e da evolução científica nas suas várias vertentes.

As exigências sociais são hoje maiores. Os níveis de bem-estar exigidos em 1974 parecem, por vezes, ser parcos face às necessidades do século XXI. Por outro lado, pilares da Revolução como o direito à saúde e à habitação, parecem hoje incompletos e em processo de retrocesso. A economia portuguesa parece estagnar e toda esta conjuntura faz com que ideologias políticas antiquadas e provenientes de regimes totalitaristas regressem em força. Para isso, ajudam também as influências similares vindas dos países vizinhos e próximos geograficamente.

Poderíamos com tudo isto dizer que a culpa é do partido A ou partido B ou dos principais partidos que têm legislado o país durante estas quase cinco décadas. Mas na realidade, a verdade ou parte dela é muito mais complexa.

Passados 49 anos e mesmo com um índice de escolaridade média muito maior, os cidadãos continuam a não associar liberdade a responsabilidade.

Viver num regime democrático liberal, com direitos e garantias de liberdade é também aumentarmos o índice de responsabilidade individual.

Não raras vezes se ouve alguém dizer, “que os políticos isto ou aquilo” como se todos os cidadãos maiores de idade na posse das suas capacidades cognitivas não fossem também eles políticos.

Só o ato de votar, já é um ato político. E se nas últimas décadas o número de partidos e forças políticas aumentou grandemente, se o nível de escrutínio em campanhas políticas, debates, sessões de esclarecimento e outros aumentou, como pode a percentagem de abstenção continuar a crescer?

Será que a culpa é só daqueles que se candidatam aos cargos políticos e que exercem essas funções?

E já agora quantos portugueses e cidadãos de Portugal já participaram em consultas públicas ou em assembleias municipais ou de freguesia, ou puramente acompanham ao detalhe as ações do partido político em que votaram e que ajudaram a eleger um determinado deputado ou determinado vereador?

É devido a este afastamento exercido pelo cidadão comum, agente político (mas não possuidor de um cargo político), face aos órgãos de decisão, que o país não progride tão rapidamente e tão sustentadamente como se esperaria ou desejaria.

É por este motivo que o cidadão comum também é responsável, culpado e não vítima como muitas vezes se tenta personificar. Esta incapacidade é, inclusivamente, o motivo pela manutenção de algumas práticas censórias invisíveis, que restringem indiretamente a liberdade de expressão sobretudo no mercado laboral, mesmo quase 50 anos após o fim do regime ditatorial do Estado Novo.

Mas o 25 de Abril não trouxe só mudanças políticas e económico-sociais, trouxe também alterações filosófico-sociais (se me permitem o abuso linguístico).

Viver em regimes ditatoriais é por vezes mais fácil em certas questões. A moral é só uma e indiscutível, a ética ou a deontologia é só uma e indiscutível, a verdade é só uma e indiscutível, a razão é só uma e indiscutível, e até o culpado não morre solteiro, mas fica casado em regime monogâmico e tradicional. No fundo, tudo é esquemático, lógico e facilmente entendível, facilitando certos padrões comportamentais e sociais.

Com a abertura da sociedade a direitos e deveres iguais, a uma igualdade entre estatutos, géneros e gerações, todos estes aspetos perdem a sua objetividade fria, e tornam-se em elementos alvos de uma subjetividade múltipla só ao alcance de pessoas com maior sensibilidade e esclarecimento social.

Julgo que é neste ponto que a sociedade portuguesa se encontra. Atualmente o que para uns é moral, para outros é imoral, e ninguém tem mais razão que o próximo, é tudo uma questão de compreensão do outro. A ética e a deontologia são hoje passíveis de discussão, embora nem sempre de obrigatória revisão e alteração.

A verdade não é sempre única, nem igual para todos, mas tal como no caso da moral, a verdade de uns não é melhor que a verdade de outros, é só diferente.

A culpa continua a não dever morrer solteira, mas o ato de encontrar o culpado deixou de ser tão vital, porque a culpa tornou-se muito complexa. Deixou de ser monogâmica e tradicional para se transformar em poligâmica e com muito mais níveis, categorias, intensidades e correlações de culpabilidade.

No fundo, a liberdade tão proclamada, festejada e desejada a 25 de abril de 1974 é hoje um paradoxo. Não deixou de ser um direito, um prazer e uma felicidade. Mas tornou-se similarmente, um dever, uma responsabilidade e uma complexidade mais profunda do que a sensibilidade e os limites de aceitação de muitos cidadãos permite.

Neste contexto, urgem duas questões.

O 25 de Abril está finalizado e completo? Não, pelo contrário. Está longe de estar terminado, nem nunca deverá ficar completo.

O 25 de Abril esgotou o seu projeto de sociedade e tornou-se numa utopia? A resposta está na capacidade que o cidadão tem de aumentar a sua sensibilidade e compreensão do outro e de aceitar a diferença e variedade.

Ao aproximarmo-nos do cinquentenário da Revolução do 25 de Abril de 1974, paira sobre Portugal e sobre os portugueses a questão final. Chega de democracia e liberdade ou vamos continuar a construir o projeto inacabável?

#NãoPodias: conseguimos imaginar como era viver num país assim?

Já está a circular na Internet e nas redes sociais uma campanha que vai explicar aos mais jovens – e não só – o que não podiam fazer se vivessem em Portugal há 50 anos. Em 2023, assinala-se o cinquentenário da revolução que devolveu aos portugueses garantias e liberdades e instaurou a democracia no país.

A TejoMag falou com Maria Inácia Rezola, comissária executiva das comemorações dos 50 anos do 25 de abril. Realçou a importância de explicar às gerações mais novas as conquistas de há 49 anos e por que razão deve a transformação do regime ficar na memória das que já não a vivenciaram.

“O 25 de Abril encerra uma dimensão geracional significativa: quem viveu a ditadura perceciona as “conquistas revolucionárias” de forma diferente em relação às gerações que nasceram depois do 25 de Abril ou depois da viragem do milénio. Pretendemos que os 50 anos do 25 de Abril sejam uma oportunidade para refletir sobre os próximos 50 – e o contributo dos mais novos é absolutamente indispensável nesse debate”, aponta Maria Inácia Rezola.

A iniciativa resumida na hashtag #NãoPodias conta com vários trabalhos publicados em plataformas como o Facebook, Instagram ou o Youtube. A ideia será que a mensagem seja difundida de forma mais rápida, através de ilustrações e pequenos vídeos sobre o que não podia ser feito antes de 25 de abril de 1974.

“A Campanha surge neste contexto. Queremos, com recurso às plataformas e linguagens que são familiares a estes públicos, mobilizar mesmo os menos politizados e menos interessados em temas históricos. A nossa expectativa é que os jovens participem na iniciativa e que mobilizem outros públicos, como os seus pais e avós, para esta reflexão sobre a Liberdade.”

naopodias2 #NãoPodias: conseguimos imaginar como era viver num país assim?

O direito à educação – bem como o acesso ao êxito escolar – só foi consagrado na Constituição Portuguesa após 1974.

“Não podias votar. Não podias expressar-te. Não podias discordar. Não podias viajar livremente. Não podias reunir-te. Será que conseguimos imaginar como era viver num país assim?”. É desta forma que arranca um vídeo partilhado no Youtube pela Comissão dos 50 anos do 25 de abril. Maria Inácia Rezola enumera os vários limites que a ditadura impunha aos portugueses e que hoje seriam inconcebíveis. Uma das frases fortes do vídeo indica que conhecer o passado permitirá valorizar as conquistas de abril e valorizar a conquista da liberdade e da cidadania.

“Estou muito satisfeita com o resultado. Temos visto, quer partilhas dos recursos que disponibilizamos no nosso site, quer interpretações dos #NãoPodias que selecionámos”.naopodias1 #NãoPodias: conseguimos imaginar como era viver num país assim?

A campanha foi desenvolvida em 11 ilustrações que mostram os vários conceitos proibidos antes de 1974. O contacto estreito com a restante realidade europeia não acontecia.

A grande maioria de nós não sabe o que é viver sem liberdade. Em março do ano passado, Portugal cumpriu 17.500 dias em liberdade, mais um que em ditadura.

Mas já em 2018, a propósito das comemorações dos 44 anos da revolução, se tinha atingido um marco importante: Mais de metade da população portuguesa tinha nascido depois de 1974. Será que os jovens valorizam abril da mesma forma?

“Como professora, encontro sucessivas gerações de jovens para quem o 25 de Abril é uma realidade muito longínqua, mas que desperta grande interesse. Temos de ser nós a ir ao encontro deles, e não esperar que sejam eles a procurar-nos. Devemos ser criativos, dialogantes e proativos. É impossível chegarmos a todo o País, a todos os jovens. Felizmente, existem no terreno muitas entidades e agentes empenhados em mobilizar os jovens para as comemorações. O 25 de Abril é o momento fundador da democracia portuguesa. O seu 50.o aniversário é uma oportunidade relevante para a divulgação da história e da memória para as novas gerações.”