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Legislativas: O que foi dito (e o que ficou por explicar) no debate entre PS e AD

Ao fim de várias semanas, a dúvida foi esclarecida. Se perder as eleições, o secretário geral do Partido Socialista (PS) admite viabilizar um Governo da Aliança Democrática (AD), caso a coligação PSD/CDS/PPM vença as legislativas de 10 de março sem maioria absoluta.

A garantia de Pedro Nuno Santos foi dada num dos últimos debates televisivos dedicados às Legislativas, que colocou frente a frente os líderes do PS e da AD. O encontro no cineteatro Capitólio, em Lisboa, durou 75 minutos, mas foi logo nos instantes iniciais que ficou dado o pontapé de saída para esclarecer um dos assuntos mais esperados. 

“O PS, se não ganhar, não apresentará uma moção de rejeição nem viabilizará uma moção de rejeição se houver uma vitória da AD, que nós esperamos que nunca aconteça“, esclareceu o candidato que sucedeu a António Costa na liderança do PS. 

Montenegro pede explicações ao PS

Se, por um lado, Pedro Nuno Santos deixou claro o que o partido vai fazer se for derrotado na noite eleitoral, o mesmo não se pode dizer de Luís Montenegro. Pelo menos, a avaliar pelas declarações no frente a frente.

Questionado se admite viabilizar um governo do PS, igualmente sem maioria – considerando a hipótese da AD terminar a corrida em segundo lugar – o rosto da Aliança Democrática não respondeu. Luís Montenegro mostrou apenas abertura para um cenário de governação em minoria e comprometeu-se a dialogar com os partidos da oposição, em particular o Partido Socialista, em matéria de orçamentos para os anos seguintes.

O secretário-geral do PS foi mais prudente: “Haveria alguém em casa a abrir garrafas de champanhe se nós fechássemos aqui um negócio sobre orçamentos que não conhecemos.”

Mas já depois do debate, numa ação de rua em Lisboa, Luís Montenegro disse estar convencido que a AD vai ganhar as eleições com maioria e não precisará dos socialistas para governar. Em declarações aos jornalistas, disse que não há “ninguém a explicar” a posição assumida por Pedro Nuno Santos durante o debate televisivo.

“Mas eu vou explicar, foi por uma razão muito simples: Pedro Nuno Santos concluiu que a AD vai vencer as eleições e concluiu também que o PS, com o BE e o PCP, não vão ter uma maioria parlamentar igual àquela que tinham em 2015. Portanto, como ficou de mãos atadas, quis dar uma de moderado. A mim não me engana”, concluiu o Presidente do PSD.

“Polícia unida jamais será vencida” 

Já se antevia um debate quente, mas o ambiente aqueceu ainda mais com a presença surpresa de milhares de elementos da PSP e da GNR à porta do Parque Mayer, onde Pedro Nuno e Montenegro se bateram por mostrar que seriam a melhor opção para próximo primeiro-ministro de Portugal.

Os profissionais das forças de segurança estavam em protesto no Terreiro do Paço e acabaram por se deslocar para junto do local onde decorreu o debate político. Não foram registados confrontos, mas a Direção Nacional da PSP já anunciou a abertura de um inquérito para apurar responsabilidades, já que a manifestação estava autorizada apenas para o Terreiro do Paço, na baixa lisboeta.

A plataforma que junta os sindicatos da PSP e as associações da GNR mantém a reivindicação do pagamento de um suplemento de missão igual ao que já é pago aos inspetores da PJ. O Governo, por seu lado, diz que nada pode fazer agora enquanto estiver em gestão.

Sobre os protestos da PSP e a GNR, os dois candidatos deixaram claras as posições também durante o debate.

Pedro Nuno Santos disse que “é muito importante chegar a um acordo”, mas lamentou o protesto junto ao Capitólio. “Não se negoceia sob coação”. Luís Montenegro atirou a responsabilidade do descontentamento ao atual governo socialista e comprometeu-se a encetar negociações logo que o governo da AD tome posse.

Saúde, Educação e Impostos: Os dois lados

São algumas das medidas que mais preocupam os portugueses e os dois principais partidos na corrida para formar Governo já apresentaram e esclareceram de que forma as querem ver aplicadas

Tanto PS como AD defendem a subida do salário mínimo nacional até ao final da legislatura. Ambos querem que o rendimento mínimo do trabalho atinja os 1.000€ em 2028. 

Quanto ao salário médio, a Aliança Democrática aponta para 1.750€ em 2030. A AD prevê um crescimento da economia portuguesa de 2,5% em 2025 até 3,4% em 2028, através de um choque fiscal de cinco mil milhões de euros. Já o PS refere uma subida do valor em 20% até 2026.

Na fiscalidade, destaque para o Imposto sobre Rendimentos Singulares (IRS), sobretudo para os mais jovens. O PS promete alargá-lo “a todos”, independentemente da escolaridade. A AD prevê uma taxa máxima de 15% até aos 35 anos, com uma exceção no último escalão. A atualização dos escalões segundo a inflação é uma bandeira comum aos dois partidos.

Na educação, as duas forças políticas fazem coincidir aquela que será a medida mais relevante para a próxima legislatura: A reposição do tempo de serviço dos professores.

PS e AD defendem a devolução integral dos 6 anos, 6 meses e 21 dias aos profissionais de educação, mas de diferentes formas. Enquanto que os socialistas querem uma devolução assente na negociação com os professores, a Aliança Democrática define, desde já, uma devolução a um ritmo de 20% ao ano.

Para tornar a profissão mais atrativa, o PS promete diferentes salários de entrada, de forma a reduzir a diferença com os rendimentos do topo da profissão. A AD quer medidas que possam fixar professores nas zonas de baixa densidade em Portugal. A dedução de despesas de alojamento em IRS é uma das possibilidades.

A Praça do Império entre os saudosismos antiquados e os falsos moralismos

Com a inauguração do novo jardim da Praça do Império ressurgiu o debate sempre latente em volta dos brasões alusivos às antigas colónias portuguesas.

Um debate estéril que coloca em oposição os saudosistas aos novos ocultadores da história.

Esta praça tem uma denominação toponímica que nem sempre foi igual. Durante muito tempo e mesmo após a Exposição do Mundo Português (em 1940), mantinha a denominação, já antiga, de Praça Dom Vasco da Gama, só passando a ser Praça do Império em 1948 por assim já ser denominada popularmente como justificava a deliberação camarária no edital de 29 de abril.

Mas muito embora a denominação da praça possa servir de discussão, são os brasões florais ali colocados em 1961, por ocasião da 11ª Exposição Nacional de Floricultura e agora substituídos pela sua representação na calçada do jardim, que têm gerado nos últimos anos, uma acesa polémica.

Brasões que representam em parte as (na altura) províncias ultramarinas portuguesas, anteriormente juridicamente denominadas de colónias portuguesas.

Para além do duelo apologético, o que me parece mais interessante é o possível “duelo” que os conceitos império e colónia travam aquando de uma análise sobre as realidades jurídicas e práticas de jure e de facto, respetivamente.

Se atentarmos à documentação oficial, nunca Portugal se assumiu como um império de forma oficial e generalizada, apenas existindo alguma documentação parcial do Estado a mencionar a palavra. Nunca nenhum chefe de estado ou chefe de governo português foi proclamado ou se autoproclamou como imperador. Como tal, na perspetiva de jure, Portugal nunca foi um império.

No entanto, na prática, nunca houve uma convivência igualitária entre a cultura praticada no atual território de Portugal e a cultura praticada por imensos povos nos territórios administrados por Portugal durante os seus cinco séculos de presença intercontinental. Pelo contrário, os portugueses como os demais europeus sempre tentaram criar uma supremacia cultural do povo de Portugal continental sobre os demais povos sob administração portuguesa pelo mundo fora.

Nesse sentido, Portugal constituiu entre 1415 e 1999, um império.

Contudo, nestas questões de impérios, nem sempre podemos ter uma visão unívoca. Senão vejamos. 

Não poderemos considerar a nossa vizinha Espanha como um império que se mantém nos dias de hoje? Mesmo com uma organização político-administrativa de autonomia regional, não continua a existir um domínio cultural e político de Castela sobre os demais, povos, nações ou culturas que constituem a pátria espanhola? No entanto, o mundo, a União Europeia em concreto, e os portugueses em especial convivem bem tal situação.

Não existe no outro lado do mundo um país chamado Japão cujo chefe de estado é o imperador? E não convivemos todos bem com esse facto?

Muito diferentes, são aqueles que se comportam como imperadores, que mantém o seu império, e que na ânsia de o alargarem empreendem processos expansionistas como Vladimir Putin, faz por estes dias.

A Praça podia voltar a chamar-se Praça Dom Vasco da Gama, mas se tem lá os brasões das antigas colónias, qual o problema em manter o nome de Praça do Império?

No entanto, são os brasões que tanta polémica têm levantado.

No fundo, o verdadeiro problema não está relacionado com a existência dos mesmos, mas antes com a falta de jardineiros para manter um cenário que tanto enobrecia os arranjos florais públicos em Lisboa e que transformou os brasões florais em brasões calcetados.

Em boa verdade não são só os brasões coloniais ou das províncias ultramarinas a estarem representados na Praça do Império. Também lá estão os brasões dos 18 distritos de Portugal continental, na época imperial denominado de metrópole e os brasões das regiões dos Açores e da Madeira, Ao conjunto junta-se a Cruz de Cristo e a Cruz de Avis.

Contudo, são os brasões das antigas possessões portuguesas que levantam a questão colonial. Mais uma vez, uma questão que merece uma análise comparativa na vertente de jure e de facto. Legalmente, foi a ditadura militar antecedente propulsora do Estado Novo que criou o regime colonial. Nesta época, existia mesmo uma política ultramarina com base na ação jurídica colonial como prova o Acto Colonial de 1930, reforçado na Constituição de 1933. Porém, logo nos anos 40 (no caso da Guiné Portuguesa) e depois em 1951, o regime português aboliu o estatuto de colónias e reimplantou o estatuto de Províncias Ultramarinas, criado pela Monarquia Constitucional e continuado pela Primeira República. No seguimento desta política, em 1961, o Estado Novo decidiu abolir o estatuto do indigenato criado ainda nos anos 20.

Porém, na prática e embora tenham existido esforços para minorar a situação, o regime e ação colonial continuaram sempre até à independência destes territórios em 1974 e 1975. Recordemos que a presença ultramarina portuguesa fora da Europa só terminou em 1999 com o fim da administração portuguesa em Macau.

Existir, portanto, um local denominado de Praça do Império em Belém, uma zona de Lisboa rodeada de símbolos históricos que aludem à Expansão Ultramarina Portuguesa, não é um serviço de ativismo ideológico. É um ato de pedagogia e educação.

Não cabe à História, aos historiadores, nem à toponímia agitar bandeiras ideológicas, cabe-lhes contar a verdade.

A polémica dos brasões da Praça do Império, encerra um duelo entre duas fações da sociedade que tem graves problemas em  aceitar a realidade da democracia liberal em que Portugal se transformou e deve continuar a manter.

Por um lado, existem os que defendem a manutenção dos brasões meramente por questões saudosistas anacrónicas. Portugal, foi efetivamente um país imperialista, implementou ações colonialistas e deixou de ter sob sua administração territórios hoje subdesenvolvidos, alguns envolvidos em regimes ditatoriais sob influência económica da maior potência emergente do mundo, mas soberanos. Estados independentes que devem continuar a realizar o seu caminho mantendo a sua soberania e trabalhando em cooperação com Portugal, sempre que assim desejarem. Portugal, mesmo com as suas incongruências é atualmente um país e uma nação imensamente mais desenvolvida, mais livre, mais liberal e sobretudo melhor do que foi durante o Estado Novo. Ser tradicionalista, conservador e nacionalista, não é necessariamente ser saudosista atávico, repressor, hierárquico ou clerical. 

Por outro lado, existe uma fação da sociedade que quer apagar as menções ao passado português, argumentando que é um passado racista, xenófobo, elitista. O passado é o passado. Não se pode analisar o passado com os ideais e o conhecimento do presente. Mais uma vez, não se pode ser anacrónico. Portugal é e deve continuar a ser um país constitucional, democrático, liberal, laico, sem afirmações de classe perante a justiça e perante o Estado e cada vez mais inclusivo. É um país e um Estado que dá o direito de cidadania a todos os que querem contribuir para a economia portuguesa, extravasando por vezes essa característica para o direito de nacionalidade o que me parece muitas vezes erróneo e inaceitável. Mas é também um país e um Estado que abre as portas a muitas pessoas que sob o estatuto de refugiado, encontram neste território uma forma de recomeçarem as suas vidas.

Não é com a ocultação da história e do passado que se defendem direitos, liberdades, igualdades e garantias. A ocultação ou rescrição falaciosa da história é uma prática comum dos regimes opressores como bem podemos ver no Leste Europeu atualmente.

Aos moderados que são os que constituem a maioria da população cabe utilizar e aproveitar a toponímia para educar e formar as gerações futuras. 

Ao invés de andarmos a discutir a existência ou não dos brasões na Praça do Império devíamos era discutir como criar estratégias e recursos interpretativos e comunicativos para explicar o motivo da existência de tais símbolos, em tal local. 

Frederico Gaspar