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Promessa cumprida. Antigo logótipo do Governo está de volta

O novo governo já tomou posse e a primeira mudança implementada logo nos primeiros minutos foi o regresso do antigo logótipo do executivo. O símbolo com elementos referentes à bandeira nacional regressa à página oficial do Governo e às redes sociais. Aliás, já fez também parte da imagem do primeiro Conselho de Ministros no palacete de São Bento.

A imagem gráfica “repõe símbolos essenciais da nossa identidade, da nossa história e da nossa cultura. Volta a ter a esfera armilar, com escudo, quinas e castelos, em que o povo português se identifica”, explicou o ministro da Presidência, António Leitão Amaro, logo a seguir à reunião com todos os membros do novo Governo.

A decisão já tinha sido tomada anteriormente durante a campanha eleitoral. Por isso, se a Aliança Democrática vencesse as eleições, Luís Montenegro daria ordem para que a imagem gráfica implementada, em dezembro, por António Costa, fosse deitada fora. Assim foi e o Governo volta a ter o mesmo símbolo que executivos anteriores tiveram.

logotipo_governo_01-300x200 Promessa cumprida. Antigo logótipo do Governo está de volta

A polémica com o logótipo extinto

Uma imagem “inclusiva, plural e laica”, justificou à época, o executivo de António Costa para a implementação do símbolo, em dezembro. “O logótipo foi alterado perante a sua falta de legibilidade e complexidade para as atuais plataformas digitais. Esta nova marca respondia de forma eficaz aos novos contextos”, explicou uma fonte do gabinete de António Costa à revista Sábado.

No entanto, a alteração da imagem provocou inúmeras críticas da oposição. A de Luís Montenegro soou durante a campanha. O então candidato da AD acusou o anterior executivo de sucumbir a referências históricas e identitárias. “Já chega de política de plástico”, disse o Presidente do PSD

Aliás, a grande polémica relacionada com a anterior imagem gráfica esteve relacionada com o preço que o Governo pagou por ela. O trabalho encomendado ao designer Eduardo Aires custou 74 mil euros + IVA. O contrato foi celebrado por ajuste direto no ano passado.

Ao Polígrafo, António Costa justificou que a proposta de Eduardo Aires tinha “o preço mais baixo e a equipa mais qualificada”.

Imagem: XXIV Governo Constitucional de Portugal, no “X”

Joana Cordeiro: “Vivemos num cenário de estagnação económica e de mediocridade”

Joana Cordeiro é deputada da Iniciativa Liberal, tem 38 anos e foi eleita por Setúbal para a Assembleia da República. É licenciada em Gestão de Marketing e desempenha o cargo de Vogal da Comissão Executiva no partido.

Começo por perguntar-lhe quais serão as principais diferenças visíveis na gestão do partido?

De facto, tivemos mudanças nos últimos tempos mas são mudanças que fazem parte da nossa vida. Sempre fomos um partido criado por pessoas que tinham o objetivo de mudar o que tínhamos no país, portanto as mudanças não nos assustam propriamente. É preciso mudar, mas vamos adaptando-nos às circunstâncias da realidade. Houve vontade manifestada pelo João Cotrim de Figueiredo de não continuar à frente do partido e é algo natural. O Rui Rocha transmitiu sempre que não havia uma ruptura com o sucesso que o partido conquistou até então, porque realmente temos tido sucesso que não justifica… existem mudanças pois existe um caminho que não está a acontecer, onde não se conseguiu atingir os objetivos e que não é o caso da Iniciativa Liberal. O que podemos esperar com o Rui é aquilo que já foi transmitido e que tem sido dito. O Rui Rocha é muito próximo das pessoas e, de certa forma, a percepção pública que a Iniciativa Liberal às vezes tem é de ser um partido que está um bocadinho afastado, que está muito concentrado nos centros urbanos e que só tem um tipo de discurso muito virado para a economia. Acho que esta mudança vai ajudar a que as pessoas tenham uma percepção diferente. O Rui Rocha é um deputado eleito por Braga, que não é uma das grandes cidades como Lisboa e Porto, mas sempre fez a sua campanha muito próxima das pessoas e isto é o que o Rui trouxe e traz como presidente do partido. Uma política com maior proximidade e com temas diferentes, para além da economia, que trazem diferença à vida das pessoas. 

joanacordeiro2023martaalmeida_16 Joana Cordeiro: “Vivemos num cenário de estagnação económica e de mediocridade”

Joana Cordeiro é Vogal da Comissão Executiva da IL

No seu primeiro discurso como líder do partido, Rui Rocha diz que “só interessa o futuro”. Qual é o futuro da Iniciativa Liberal?

Temos de olhar para o futuro. Temos de aprender com o passado para podermos melhorar o futuro. Mas o que temos assistido é um país que está estagnado há muito tempo, que não tem crescimento económico. E o olhar para o futuro é sabermos o que temos de fazer para contrariar isto. Vivemos num cenário de estagnação económica e de mediocridade e o que temos assistido cada vez mais é que, com essa falta de crescimento económico que temos, deixamos de ter recursos e, quando não temos recursos, assistimos cada vez mais ao que temos visto até hoje, que é de uma degradação completa dos serviços públicos. Portanto, o olhar para o futuro é conseguirmos contrariar esta estagnação com propostas que resolvam o problema das pessoas e que contrariem o cenário que temos. Desde que é presidente da Iniciativa liberal, o Rui e toda a comissão executiva têm o objetivo de chegar aos 15% de delegações de votos nas eleições legislativas e o objetivo é podermos contribuir para mudar as políticas porque não basta chegarmos à terceira força política nacional, temos de ter uma percentagem que nos permita efetivamente influenciar o país e de influenciar as decisões que se tomam no país. Também tem sido muito referido que temos de acabar com este bipartidarismo que temos entre o PS e o PSD e, com 15%, nós podemos fazer essa diferença. É este o caminho para o futuro, é continuarmos a apresentar propostas que as pessoas reconheçam que são uma mais valia para elas, que as compreendam, que resolvam problemas do dia a dia e que façam a Iniciativa Liberal crescer no sentido de poder influenciar e mudar o cenário que temos no país.

“O que nos preocupa e que levanta todos os alertas é o facto de existir um grande ataque à propriedade privada. Quando temos o Estado a decidir o que podemos fazer com um bem que é nosso, se calhar estamos a cruzar uma fronteira que não deveria ser cruzada.”

Rui Rocha disse que a Iniciativa Liberal tenciona ir para a rua e fazer manifestações. Há a possibilidade de se juntarem ao movimento referendo pela habitação em defesa do direito a habitar em Lisboa?

O partido nunca deixou de estar na rua. Sempre fizemos campanha, eu fui eleita por um distrito que também não é Lisboa e Porto, fui eleita por Setúbal, e fizemos campanha na rua, estivemos sempre muito na rua. O que temos de fazer mais é essa tal política de proximidade e estar onde as pessoas estão e defender os seus problemas. No caso da habitação, a Iniciativa Liberal tem defendido uma agilização de processos, menos burocracia, uma maior liberalização do mercado… Compreendemos que existem problemas na habitação e isso é evidente. Existem pessoas com muitas dificuldades em conseguir ter uma casa, principalmente os jovens. Mas o que não temos concordado e, agora, com o pacto que vimos ser apresentado, não concordamos com as medidas que são apresentadas. O que temos defendido tem que ver com o aumento da oferta. Temos de ter mais casas disponíveis no mercado porque é a lei da oferta e da procura a funcionar, se temos mais oferta, obviamente que os preços baixam. Se continuarmos a ter medidas que não aumentam a oferta, não vai resultar. Compreendemos todas as reivindicações e todos os movimentos, mas discordamos das medidas e da forma como são feitas. 

A propósito deste tema sobre a habitação, ocorreu ontem o Conselho de Ministros onde foram tomadas diversas medidas, tal como o incentivo à colocação de casas no mercado da habitação em vez de no Alojamento Local. Rui Rocha foi bastante explícito ao dizer que esta medida seria a “morte do arrendamento local”. Para a Iniciativa Liberal, a única solução é a transferência das onze sedes de organismos públicos para fora da capital?

Existe, sim, pouca oferta de habitação e isso nós temos de remediar. E temos problemas que são principalmente concentrados nas zonas urbanas, Lisboa e Porto. O nosso pacote de descentralização e de deslocalização de serviços públicos tem que ver com o facto de tentarmos diminuir o peso dos organismos nas cidades. Obviamente que, quando se deslocar os serviços para fora de Lisboa e do Porto, é normal que exista um acompanhamento das populações que acompanhem esses serviços. O nosso objetivo com essa medida é diminuir a pressão. Há todo um conjunto de medidas na habitação, não podemos olhar para cada medida de forma isolada, não é só uma questão de agilizarmos os licenciamentos. Da mesma forma, temos uma carga fiscal altíssima, por exemplo, as questões do IVA da construção e do número do imposto que recai… portanto, os tipos de regulamento à construção que encarecem o preço final das casas. Há aqui todo um conjunto de medidas que temos vindo a defender que são claras e que são bastante diferentes daquelas que apareceram na quinta-feira. E o que nos preocupa e que levanta todos os alertas é o facto de existir um grande ataque à propriedade privada. Porque quando temos o Estado a decidir o que podemos fazer com um bem que é nosso, se calhar estamos a cruzar uma fronteira que não deveria ser cruzada. Isso vem em linha com aquilo que o Rui disse e, no caso do Alojamento Local (AL), de certa forma vai acabar por ser “a morte do Alojamento Local”. Isto é um tema importante porque o AL contribuiu para a revitalização dos centros das cidades. Há 20 ou 30 anos ninguém queria viver no centro de Lisboa porque tínhamos prédios degradados e tínhamos um ambiente diferente do atual. O que fez com que tivéssemos o ambiente que temos hoje foi o turismo, que fez com que se desenvolvessem restaurantes e com que a oferta cultural aumentasse. Temos cá pessoas que vão usufruir desses serviços. E, agora, o que estamos a dizer é que, afinal, vamos acabar com isso tudo e depois, quando acabar, o que é que teremos? Vamos voltar ao que tínhamos há 20 ou 30 anos? É esta a solução? Já existem inúmeros estudos que comprovam que o Alojamento Local não é responsável pela falta de casa no mercado, portanto, não são estas medidas que vão resolver. Este problema só se vai resolver quando a oferta aumentar, porque os preços não vão baixar enquanto isso não acontecer. Existem dados que indicam que o número de transações feitas com vistos gold são residuais face ao número de transações feitas com a compra e venda de casas, ou seja, não é um tema. Temos de aumentar a oferta! As medidas de proibição de novas licenças de AL, de reavaliação dessas licenças e do fim dos vistos gold não são medidas que vão aumentar a oferta de habitação.

joanacordeiro2023martaalmeida_18 Joana Cordeiro: “Vivemos num cenário de estagnação económica e de mediocridade”

Joana Cordeiro é candidata por Setúbal

O que pensa o partido e a nova liderança dos preços das casas na capital e da realidade de muitos portugueses não passar por ter casa na cidade de Lisboa?

As pessoas deveriam poder escolher onde querem morar, mas isso, como em qualquer outra componente da vida, são escolhas que se fazem mediante as possibilidades que se tem. Claro que as pessoas gostam de viver perto do trabalho. No meu caso, vivo na margem sul e é um facto que as pessoas que vivem do outro lado do rio e que trabalham em Lisboa têm um conjunto de dificuldades a nível de acessos e de transportes que tem que ser resolvido. Se tivéssemos uma rede de transportes públicos mais eficaz, se calhar as pessoas poderiam facilmente deixar de viver no centro da cidade. Se tivermos os serviços e empregos todos concentrados dentro das cidades vamos continuar a ter problemas.

“As pessoas sentem que continuam a contribuir com mais impostos e com mais carga fiscal e acabam por não sentir um retorno da parte do Estado.”

Agarrando no tema dos transportes, a mais recente greve da CP teve início a 8 de fevereiro e dura até dia 21. A greve já perturbou centenas de portugueses que se viram sem meios de deslocação para ir trabalhar. Para além de que já está prevista uma nova greve para os dias 27 de fevereiro e 1 de março. Estas greves chegam ao pensamento do governo ou são greves que apenas incomodam a população?

Existe uma evidente degradação dos serviços públicos. Existe um problema enorme na administração pública onde os profissionais não são valorizados, não existe uma cultura de meritocracia, não existe uma valorização profissional, e as greves a que vamos assistindo nos vários setores resultam disto. De facto, complicam a vida das pessoas mas temos de repensar de que modo é que olhamos para o todo e conseguimos ter medidas estruturais que resolvam os vários problemas. Temos defendido várias vezes que é preciso fazer uma reforma na administração pública em que tenhamos um sistema de avaliação mais justo e que seja de forma transversal para os vários profissionais, que valorize as suas carreiras, que exista uma cultura de meritocracia que, hoje, não se vê. Porque, aí, as pessoas sentem-se valorizadas no seu trabalho. E se começarmos a resolver estes problemas, se recuperarmos o crescimento económico que nos permite ter mais recursos para responder às várias solicitações, então vamos ver a questão das greves a diminuir.

joanacordeiro2023martaalmeida_19 Joana Cordeiro: “Vivemos num cenário de estagnação económica e de mediocridade”

Joana Cordeiro é licenciada em Gestão de Marketing

Qual seria a melhor forma de chegar a um acordo que satisfaça as duas partes?

Eu não consigo responder de uma forma direta porque as greves têm vários motivos, não há uma resposta certa ou que resolva os problemas todos. A questão é: se os trabalhadores se sentirem valorizados e sentirem que quando se esforçam e trabalham que não têm uma carga fiscal enorme que recai sobre os salários, se sentirem que chegam ao fim do mês e que têm mais dinheiro no bolso que lhes permite ter outro tipo de atividades, automaticamente as pessoas sente-se mais felizes. É por aqui que temos de ir.

Têm ocorrido, por todo o país, as greves dos professores que pedem “respeito” pela profissão. Estão em negociações com o ministro da Educação e também com o primeiro-ministro. O que considera que está a falhar nestas negociações?

Acho que o que falha sempre é haver uma escuta de ambos os lados. Daquilo que assistimos com os professores, com a CP e com os enfermeiros nas várias greves é que há uma falta de valorização, portanto, não há uma resposta que vá ao encontro das solicitações todas. Acho que o que falta é o governo querer fazer diferente. O governo tem de ouvir e de perceber o que é que as pessoas precisam e tem de atuar nas áreas em que pode atuar. O governo, neste momento, tem excedentes… tem receitas extraordinárias e isso não está a ser refletido para as pessoas. Portanto, as pessoas sentem que continuam a contribuir com mais impostos e com mais carga fiscal e acabam por não sentir um retorno da parte do Estado e isso gera o descontentamento.

Se gostou desta entrevista, fique a conhecer quem são as mulheres mais influentes da história.

Duas coleções, um novo museu e o renascimento da política museológica

No Centro Cultural de Belém, o ano começou com o fim de um museu e o surgimento de um novo no seu lugar. 

Na verdade, o que mudou em termos práticos foi apenas o nome mas, o que está planeado é muito mais do que a substituição de um museu por outro.

Com a extinção da Fundação de Arte Moderna e Contemporânea – Coleção Berardo, o Ministério da Cultura aproveitou o momento para criar no Centro Cultural de Belém um novo museu, o Museu de Arte Contemporânea – Centro Cultural de Belém utilizando como base a Coleção Berardo, arrestada pelo Estado na sequência do processo judicial instaurado a Joe Berardo, mas também a Coleção da Fundação Elipse, já propriedade do Estado na sequência do processo judicial encetado a João Rendeiro.

Desta forma, o ministério tutelado por Pedro Adão e Silva, pretende criar um museu de arte moderna contemporânea de renome mundial no território português.

Segundo o ministro da cultura por enquanto, apenas se altera o nome, visto que o espaço expositivo vai manter-se igual, prevendo-se que as adaptações e reformulações programáticas e expositivas ocorram durante o presente ano.

Deste modo, o governo português esboça uma política museológica coerente e racional. 

Não é que o Museu Coleção Berardo, não fosse já um museu de renome internacional devido à qualidade e importância da sua coleção, sendo já um dos museus mais visitados em Portugal atingindo mais de 1 milhão de visitantes nos anos pré-pandemia. 

No entanto ao juntar à Coleção Berardo, centrada no século XX  (e que aumentou gradualmente no número de obras ascendendo já a mais de mil), a coleção elipse com um acervo de 860 obras, que não se sobrepõe antes complementa, ao reunir trabalhos dos últimos quarenta anos mostrando a realidade artística nas transição do século XX para o XXI, criam-se condições para o surgimento do mais importante museu de arte contemporânea da Península Ibérica como afirma o historiador de arte Pedro Lapa.

É verdade que este processo está longe de ser pacífico e ficar concluído, já que a Coleção Berardo está ainda envolta num processo judicial complexo até que se saiba quem será o proprietário final da mesma.

Também a planificação da nova instituição museal é completamente diferente dos cânones da museologia. O novo Museu existe já desde o passado dia 3 sem que nada para além do nome tenha mudado. De resto, o próprio  Centro Cultural de Belém é dúbio na informação que fornece no seu website, ao escrever que o museu continua em funcionamento, já não é Museu Coleção Berardo, mas também ainda não é o Museu de Arte Contemporânea, prevendo até uma inauguração futura para este novo museu.

Estamos, portanto, na presença de um museu que surge herdando a política expositiva e a programação museológica de uma instituição já extinta e que terá de adaptar a sua identidade museal sem deixar de estar visitável ao público.

Em todo o caso, o Ministério da Cultura, que tanto tem sido acusado de inércia, tendo estado na anterior legislatura, envolvido em polémicas como a que abordava o desconhecimento do paradeiro de algumas obras da coleção de arte contemporânea, a CACE, parece usar este momento para empreender uma política museológica correcta.

Como se sabe os museus são hoje uma referência no panorama cultural, e os museus de arte sobretudo os de arte contemporânea são um grande atrativo cultural, mas também turístico.

Criar um novo museu com um acervo que apresenta uma qualidade superior ao  do Museu Coleção Berardo é exponenciar esse atrativo cultural e turístico

É evidente que nos tempos que correm falar em atrativo turístico é algo que acarreta, muitas vezes, uma conotação negativa. Em todo o caso, os museus sendo instituições culturais com fins pedagógicos pautando o seu trabalho pela investigação, educação e cultura, são ótimos espaços para fomentar um turismo de qualidade, atraindo o visitante local e o turista para um espaço com coleções que devem ser estudadas, expostas e interpretadas. Um espaço, que auxilia uma política de desenvolvimento sustentável, onde a economia não estrangula a qualidade de vida e contribui para a criação de uma sociedade mais culta, conhecedora e esclarecida. Desta forma contraria-se o crescente e preocupante crescimento de locais interativos, cheios de tecnologia que apenas procuram entreter e pouco ensinar ou educar e que ajudam cidades como Lisboa a transformarem-se paulatinamente em grandes parques de diversão. Não é que não existam centros interpretativos com qualidade, onde a investigação e a educação sejam pilares fortalecedores. No entanto, sabemos como é voraz a tentação para criar espaços de puro entretenimento, rápido e escasso em informação relevante, utilizando o fantástico mundo tecnológico para atrair visitantes.  

Ao mesmo tempo que todo este processo se desenvolve, o ministro da cultura anuncia as obras de ampliação do Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado. Desta forma, surge uma dicotomia entre duas instituições museológicas públicas que embora não se distingam pelo tema, distinguem-se pela geografia dos autores das obras. 

O Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado, mais dedicado à arte contemporânea nacional e o Museu de Arte Contemporânea – CCB para a arte contemporânea internacional. Deve aqui fazer-se referência ao facto do MAC – CCB incluir também as obras de artistas nacionais presentes tanto na coleção Berardo, como na Coleção Ellipse. Além do mais o MAC – CCB deverá receber todas as obras de artistas portugueses de renome internacional como é o caso da mais recente obra adquirida pelo Estado da autoria de Paula Rego.

Esta opção política pode ser criticável, no sentido de remeter o MNAC –  Museu do Chiado para um plano secundário, apenas caseiro, mas tendo em conta as circunstâncias torna-se uma opção bastante atendível e acertada.

Também acertada é a opção de transitar a equipa do antigo Museu da Coleção Berardo, até agora, funcionários da Fundação de Arte Moderna e Contemporânea – Coleção Berardo para o corpo de funcionários da Fundação Centro Cultural de Belém.

É uma forma de manter os postos de trabalho de quem há muito tempo trabalha com a coleção Berardo, evitando sobressaltos laborais que inclusivamente afetariam a estabilidade programática do novo museu.

Não é mesmo sobre Jacinda Ardern

Escrever sobre a primeira-ministra neozelandesa Jacinda Ardern parece uma coisa tentadora, quase inevitável, para uma mãe que se dedica em exclusivo à sua família. É deveras tentador procurar acolhimento das nossas escolhas junto de pessoas importantes. Só que mais relevante do que esse conforto, para mim, é este discurso articulado e surpreendente de alguém que sente que já deu o seu melhor à tarefa e que, agora, precisa de parar.

Talvez todo este assombro se prenda, não com o facto de uma mulher não conseguir continuar a conciliar família e trabalho, como desejava e como fez até agora, mas o que arrebate é que alguém tenha estado no poder e não se tenha viciado nele, não ambicione altos voos, não queira ter assento numa qualquer organização internacional e prefira acompanhar a filha no regresso à escola e casar com o seu companheiro. E mesmo que esta saída seja para evitar uma derrota do seu partido nas eleições, também para isso é preciso uma certa dose de clareza, aferindo que há momentos em que já não estamos a conseguir ser úteis aos propósitos estabelecidos e que não somos os melhores do mundo, imparáveis e insubstituíveis.

Para uma mulher, mãe, a conciliação entre o trabalho e a família é quase sempre um “desporto radical”, porque os trabalhos são exigentes, uns a nível físico, outros pelos horários e turnos, outros porque exigem deslocações e viagens e outros porque implicam trazer trabalho para casa. Para já não falar das exigências orçamentais (sejam para o básico, sejam para o mais supérfluo) que levam a trabalhos extra, a dar tudo para conseguir uma posição melhor, mais remuneração.

Já houve tempos em que a sociedade pedia à mulher que levasse por diante o seu trabalho, que fosse uma boa mãe e uma boa esposa. Nos últimos tempos, parece que já se dá isso de barato e procura-se fomentar o sucesso, que pague as contas dos miúdos, e com o marido, pois logo se vê o que dá. Daí que seja tão estranho, assistir a uma mulher jovem e vigorosa, inteligente e de sucesso, renunciar a um cargo político, sem que haja um escândalo que o provoque, sem que haja pressão política que o precipite e sem que vá para um posto de maior “ranking”.

Para além disso, tal como aconteceu com o saudoso Papa Bento XVI, estamos perante alguém que assume que não tem mais as forças necessárias para levar a função por diante. No caso desta senhora neozelandesa, o mais normal seria que tomasse vitaminas ou contratasse mais empregadas, mas renunciar a um cargo para levar a filha à escola não parece muito entendível. Assim como, assumir fraqueza, debilidade, sem que isso traga proveitos imediatos, também não lembra ninguém.

Um dos ganhos dos anos da pandemia foi ter trazido para a realidade dos dias a possibilidade de assumirmos um ritmo de vida mais slow, mais compassado, mais natural, mais conectado com as coisas simples, como escrever um texto num pedaço de papel, com um lápis de carvão, enquanto o mais novo brinca com os legos deitado no chão da cozinha e tirar disso um prazer imensurável e energias para ser mais e melhor.

Talvez fosse mais interessante que este texto exigisse à sociedade estratégias para que a mulher não tivesse de abandonar cargos de liderança. Ou talvez, arriscando mais, fosse pertinente suscitar, quiçá, a hipótese da sociedade valorizar mais a importância da maternidade plena e exclusiva (dava-me imenso jeito!). Mas, no final das contas, este texto seria sempre sobre a necessidade que todos temos de encontrar a nossa missão, a cada momento, e de perceber onde é que a nossa presença e intervenção são mais benéficas. Porque certamente não estamos cá só para ver passar os comboios.

Prioritário é defender e fazer cumprir a Constituição

A Constituição de 1976 incorporou no seu texto os anseios e as conquistas do povo português com a Revolução de Abril e, apesar das diversas mutilações de que foi alvo, contém respostas de grande atualidade para os problemas nacionais. 

Se a nossa Constituição fosse respeitada nos seus princípios, se fosse concretizada no que significa enquanto ideia de democracia política, económica, social e cultural, se os direitos e projeto que ela contém fossem realidade, Portugal seria, sem dúvida, um País diferente para melhor, mais desenvolvido, com menos injustiças e desigualdades sociais, mas também mais capaz de enfrentar os desafios que o futuro coloca.

Num momento como aquele que o país atravessa, o que seria necessário era mais Constituição e não menos. Dar-lhe correspondência real, com elevação dos direitos e aprofundamento da democracia mas, em vez disso, os partidos alinhados com a política de direita, espoletam um processo de revisão constitucional. 

O conteúdo dos projetos de revisão apresentados por PSD, IL e Chega confirmam que a revisão constitucional se move pelo ataque ao regime democrático e aos direitos fundamentais e pelo objectivo de dar cobertura constitucional à política de direita.

Podemos encontrar nos projetos de revisão constitucional apresentados por estes partidos propostas que deliberadamente branqueiam o fascismo e sustentam a acção dos seus herdeiros, propostas com o objetivo marcado da redução da pluralidade e representatividade, a facilitação do recurso ao estado de exceção e consequente limitação de liberdades, a legalização da devassa de informações relativas às comunicações dos cidadãos por parte dos serviços de informações, a reabilitação de penas perpétuas e tratamentos cruéis ou degradantes para os condenado, entre outras.

Nos projetos de revisão constitucional de PSD, IL e Chega propõem-se coisas como a eliminação de direitos das comissões de trabalhadores ou o apagamento das responsabilidades do Estado, liquidando direitos sociais em favor do negócio.

O PS, ao utilizar a sua maioria absoluta para dar cobertura e sequência a este processo de revisão constitucional, assume uma opção com consequências graves na medida em que se abrem portas para enfraquecer a democracia.

Confirmando os compromissos com o poder económico que o têm norteado no exercício do poder, o PS afasta-se do cumprimento da Constituição e o que ela consagra nos direitos à habitação, à saúde, à educação, à proteção social, à cultura. 

Ao dar aval a este processo de revisão constitucional, o PS poderá aproveitar para assinalar diferenças de grau ou de forma com os partidos à sua direita mas, na prática, o que está a fazer é alimentar as conceções que diz querer combater.

Uma vez desencadeado o processo de revisão constitucional por PSD, IL, CH e PS, o PCP apresentou o seu próprio projeto, de sentido diametralmente inverso, precisamente para defender os valores de Abril e aprofundar o programa de futuro que a Constituição hoje comporta, dando firme combate a conceções antidemocráticas que visam a imposição de retrocessos e liquidação de liberdades e direitos no plano constitucional.

O que é útil ao país neste momento é defender e fazer cumprir o projecto que a Constituição comporta de um País soberano, desenvolvido, democrático, de respeito e efectivação dos direitos e liberdades fundamentais, de participação popular na vida democrática nacional, de um País que desenvolve as suas relações internacionais a partir de uma política de paz, amizade e cooperação entre os povos. São essas as verdadeiras prioridades relativamente à Constituição, pelo que o momento exige a intervenção e mobilização de todos os verdadeiros democratas comprometidos com um país mais justo e solidário, na defesa do conteúdo constitucional e, sobretudo, da sua efetivação.

As cinco reflexões do Presidente da República sobre a Justiça

No passado dia 10 de Janeiro ocorreu a cerimónia de abertura oficial do ano judicial, na qual o Presidente da República fez um discurso que merece que sobre ele nos debrucemos.

O discurso continha cinco reflexões sobre a justiça em Portugal, a saber

1. A Pandemia e as crises financeiras desde 2009, não diminuíram a importância da justiça, antes a aumentaram. Só uma visão redutora dirá que em termos críticos a justiça perde relevo ou prioridade.

2. A justiça não é somente a que envolve mais litígios, é de igual modo a de horizontes mais vastos. 

3. A justiça com perspectiva de longo fôlego é, por ventura, incompatível com recursos concebidos para outra sociedade, outra economia, outra vivência cidadã. Portugal de 2023 é muito diferente do Portugal dos anos 90, ou de início do século. Repensar a jurisdição comum e administrativa e fiscal, tornar mais flexível e ajustável todo o sistema, mecanismos de monitorização permanente, recursos, nomeadamente humanos, adequados às necessidades. Tem de haver consenso vastos de regime para isto ser alcançado.

4. Nem só de poder judicial em sentido orgânico se faz a justiça. Também se faz de legislação e de administração. Legisla-se e administra-se demais para o passado. Retroage-se ou retroverte-se em demasia, recorre-se ao excepcional à mingua do geral. Multiplica-se o labirinto que virá a motivar a intervenção jurisdicional.

5. Os valores sociais mudam e a democracia deve respeitar essa mudança. Mais e melhores direitos. Mais e melhor estado social de direito. Mas e se a mudança for em sentido contrário? Deve a legislação, a administração e a justiça, acompanhar essa mudança? Há quem sustente que sim. A resposta cabe a todos, mas a Constituição dá balizas, quadros de valores gerais e abstractos.

A última frase do discurso do Presidente da República é a mais impressiva e a que sumaria todo o seu tom: Os valores personalistas e humanistas, valores fundamentais de que a Constituição se quis e deve ser portadora, são irrenunciáveis e inegociáveis, neles começa e por eles passa e por eles deve afirmar-se a justiça que aqui hoje invocamos.

A questão é que estes valores fundamentais, personalistas e humanistas, são constantemente obliterados, por quem mais devia por eles velar.

E partindo já para a primeira reflexão, dúvidas não restam que em tempos excepcionais como foram e são os da pandemia, a justiça é mais importante do que nunca. Portugal viveu 15 estados de emergência entre 2020 e 2022 que tiveram como consequência a suspensão de direitos fundamentais dos cidadãos. É extremamente grave que muitos desses direitos tenham sido suspensos sem estado de emergência em vigor, através de resoluções ilegais e inconstitucionais do Conselho de Ministros que não os podia restringir ou suspender. Esta foi uma actuação gravíssima e lesiva do estado de direito democrático que, infelizmente passou sem que uma única voz institucional se levantasse para contra ela protestar, excepção feita ao então Bastonário da Ordem dos Advogados. A lição a retirarmos, e espero que esta tenha sido a lição que o próprio Presidente da República tenha retirado e daí a menção a este ponto no seu discurso, é de que os direitos fundamentais não podem ser restringidos a qualquer custo, muito menos com a violação sistemática de regras constitucionais, ferindo-se assim o estado de direito democrático.

Os segundo e terceiro pontos da reflexão referem-se à justiça de longo fôlego, e ao anacronismo a que o edifício judiciário está agarrado, com tantas normas e procedimentos ultrapassados, obsoletos mesmo, com diferenças entre jurisdição comum e administrativa e fiscal, bem como com a crónica falta de meios, financeiros, tecnológicos e sobretudo humanos, que tudo justificam, que tudo desculpam, como se essa falta de meios não resultasse de uma opção política do governo.

Há que resolver de uma vez por esta constante falta de meios e de recursos que assolam os tribunais, onde se chega ao ponto de ter que se suspender audiências de julgamento porque o tribunal não tem orçamento para substituir o toner da impressora (sim aconteceu directamente comigo, não são fake news). Como se pode pensar numa justiça adequada aos tempos que vivemos, se não existem os meios básicos para a ter a funcionar? Primeiro que tudo, há que dotar o sistema judiciário das competências básicas para suprir estas necessidades primárias de funcionamento. Enquanto isto não for feito, tudo o mais são meras quimeras que nunca se transformarão em realidade.

O ponto 4 chama a atenção para mais um importante problema: a qualidade e quantidade de legislação produzida. Nos últimos três anos, por via das funções que exerci no Conselho Geral da Ordem dos Advogados, tive de elaborar pareceres sobre alguma da legislação produzida na Assembleia da República. Além de ser muita, excessiva, repetitiva, a legislação que diariamente é debitada, como se estivéssemos numa fábrica de laboração contínua, é também, muitas vezes, mal redigida, mal pensada, ou seja, mal concebida. Muito ignorado é o “Guia de legística para a elaboração de atos normativos” que, basicamente, pretende ser um instrumento de ajuda ao legislador para comunicar bem a sua actividade legislativa, devendo adoptar, para tanto, regras claras sobre a concepção, a redacção e a sistematização da lei, e que a própria Assembleia da República achou por bem criar em Maio de 2020. É imperativo que a produção legislativa seja bem feita, para que possa ser bem aplicada.

Por fim, o quinto e último ponto. Voltamos ao início, à defesa dos valores personalistas e humanistas, algo de que não podemos nem devemos abdicar nunca. Enquanto o governo e a maioria que o sustenta não perceberam que têm de zelar por estes valores, ao invés de os ferirem constantemente como têm feito, os mesmos estarão em perigo. Um perigo maior quanto maior for o desprezo que o poder político lhes dedica. E quem despreza esses valores, fere de morte a pretendida justiça.

António Costa Pinto: “O dilema da direita é o mesmo dilema da esquerda até agora”

Em entrevista à TejoMag, António Costa Pinto fala sobre, entre outros assuntos, dos desafios políticos da esquerda á direita.

Como é que surgiu esta ideia deste livro com a Oxford University?

A Oxford University Press a maior editora científica e académica no mundo aceitou uma proposta feita pelo jovem cientista político Jorge Fernandes, por Pedro Magalhães e minha. Os três do Instituto de Ciências Sociais para integrar uma vastíssima coleção de análise sobre as democracias do mundo.

É uma obra sobre a democracia portuguesa que tem mais de 40 autores, a maior parte dos quais são cientistas políticos, economistas políticos historiadores, e faz um balanço da democracia portuguesa concentrando-se na dinâmica mais recente de mudanças de partidos, mudanças na cultura política eleitoral.

antoniocostapintolivro António Costa Pinto: “O dilema da direita é o mesmo dilema da esquerda até agora”

Em que é que a nossa democracia se distingue em termos de regime partidário de outras do norte da Europa?

A democracia portuguesa nasceu de um golpe Estado militar que dá origem ao regime democrático. Convém não esquecer é um regime democrático pós-revolucionário. Os anos de 1974 e 1975 representaram uma crise na mudança do regime, a democracia portuguesa ao contrário de muitas outras, é resultado de democratização e de uma descolonização realizada em simultâneo, portanto com uma crise política muito significativa. No fundamental conhece um processo de consolidação já muito semelhante a outras democracias, nomeadamente outras mais recentes na Europa do Sul, ou seja, da espanhola e da grega.

É uma democracia muito marcada pela adesão à União Europeia, pelo impacto da política e dos atores mais importantes dos países europeus na década 70, que têm um papel importante na consolidação da democracia. A seguir à descolonização a adesão à União Europeia foi, sem dúvida, o aspeto mais marcante para a consolidação da democracia portuguesa. Mais tarde podemos dizer que a democracia portuguesa tem características não singulares, a primeira das quais é o facto de ser a 1ª democracia semi-presidencialista a seguir à francesa. Atualmente o semi-presidencialismo estendeu-se com as democratizações na Europa central e oriental. Muitos regimes políticos semi-presidenciais também apareceram. Mas o semi-presidencialismo é uma característica marcante da democracia portuguesa enquanto a maioria das democracias europeias são regimes parlamentares. Quanto ao resto tem algumas diferenças e algumas semelhanças em relação às outras.

Como analisam o distanciamento dos políticos com os eleitores desde a revolução até agora?

Temos tendência, nomeadamente a classe política reformada, a ter uma visão pessimista sobre a classe política contemporânea. Existe a ideia muitas vezes de que na altura do Dr. Sá Carneiro e Dr. Mário Soares é que era bom.  Ou seja, qualquer regime consolidado ultrapassa os seus pais fundadores dos partidos políticos portugueses, sejam Álvaro Cunhal no PCP, seja Sá Carneiro no PSD, seja Mário Soares no PS.

Quando olhamos para os partidos políticos em Portugal, no período mais recente, vemos uma crise de representação entre elite política e sociedade. No caso português deu lugar a partidos de protesto.

E vê esse carisma nos líderes políticos atuais?

É uma ideia que não tem grande fundamento. Quase todas as chamadas democracias de terceira fase, as democracias que foram criadas fundamentalmente nos anos 70, e anos 80 do século XX, os líderes fundadores desses partidos políticos democráticos tiveram uma participação política dos portugueses muito significativa. O que notamos é que foi decrescendo, mas não é responsabilidade do carisma.

A que se deve esse afastamento das pessoas?

Deve-se justamente à própria consolidação da democracia. A democracia portuguesa dos anos 70 era uma experiência nova, após 50 anos de eleições forjadas que não apelavam à participação da cidadania, houve uma forte participação. Progressivamente a democracia portuguesa foi-se caracterizando por uma ausência de participação política com os portugueses a optarem pela desmobilização em termos eleitorais. Mas isso não se deve à ausência de carisma dos líderes, deve-se a uma progressiva falta de sintonia entre a classe política governante e a sociedade.

E porquê?

Os políticos adorariam ter uma resposta para essa questão. Quanto mais educada é uma sociedade, maior é a participação. No caso português temos problemas sobre esse ponto de vista, uma parte da sociedade portuguesa alienada da vida política é a que tem menor grau de escolaridade. Por outro lado, é verdade que com a consolidação da democracia, o facto de os dois principais partidos que governam não terem uma grande diferença ideológica e programática entre si, também contribuiu para a ideia de que os partidos são todos iguais. Chegam ao poder e estando mais à direita do PSD ou mais à esquerda do partido, basicamente fazem a mesma coisa. E é por isso que alguns partidos de protesto na direita radical populista, nomeadamente como o Chega têm crescido eleitoralmente mobilizando segmentos da sociedade que estão descontentes com os partidos políticos.

A direita está cada vez mais desunida com o surgimento de novos partidos. Como vai evoluir esta crise?

Na democracia portuguesa a direita é caracterizada por um dilema que a esquerda e o Partido Socialista sempre tiveram desde a consolidação da democracia. Ou seja, o PS à esquerda do leque político sempre teve uma enorme dificuldade de construir até 2015 um acordo parlamentar com um grande partido à sua esquerda o partido comunista e depois com o crescimento do Bloco de Esquerda passou a ter dois partidos que limitavam o seu crescimento. Por isso é que o Partido Socialista teve apenas uma maioria absoluta na história até 2022, com o engenheiro José Sócrates numa conjuntura muito particular.   À direita pelo contrário social o Partido Social Democrata com o CDS construía sempre coligações governamentais. Podemos dizer que o dilema à direita é o mesmo dilema à esquerda até agora.

O PSD tem um partido de protesto à direita. A IL é um partido, que de algum modo, se podem vir a construir coligações governamentais à direita. Não é isso que está em causa, mas tem agora um partido de direita radical populista com o qual é mais difícil de construir alianças. A democracia portuguesa, e é muito interessante, apresenta hoje os mesmos dilemas à direita e à esquerda.

São ciclos da democracia que vão mudando?

São ciclos que podem ir mudando. Por exemplo o Chega significa finalmente o aparecimento em Portugal de uma tendência geral das democracias europeias da Suécia, à Itália, França, Espanha. Ou seja, a emergência de novos partidos de protesto desta vez à direita do leque político.

E esta maioria parlamentar do PS numa altura em que havia espaço para mudança de poder?

O Partido Socialista em 2015 provocou uma rotura no modo de constituição de governo em Portugal. Pela 1ª vez as maiorias de esquerda no parlamento transformaram-se numa solução governativa. Algo que nunca tinha acontecido até aí, que deu origem a um governo minoritário parlamentar do Bloco de Esquerda e do PCP. Esta segunda maioria absoluta do PS representou sem dúvida um fator muito interessante que sabíamos que ia acontecer. Todos os estudos de opinião apontavam para o seguinte: o eleitorado de esquerda gostou desta solução. Mesmo o eleitorado que votava BE e que votava PCP.  E aqueles que seriam percecionados como os responsáveis pela queda destes acordos parlamentares seriam punidos nas urnas. Foi exatamente isso que aconteceu. Ou seja, uma parte do eleitorado do PCP que percecionou estes dois partidos responsáveis nas eleições antecipadas, puniram estes partidos dando a maioria absoluta ao PS. O grande beneficiário dos acordos parlamentares da esquerda foi o PS, mesmo com uma mobilização eleitoral com o espetro da direita e do Chega.

Estudaram o perfil dos deputados ao nível da formação académica?

Começo pelas características das formações dos governos em Portugal. Em primeiro lugar quer os governos de iniciativa do PSD, quer os governos de iniciativa pelo PS não entraram em rotura com aquilo que é a composição dos governos em democracia. A elite governamental portuguesa é caracterizada por uma forte escolaridade, forte componente técnica e por politicamente ter um número significativo, muito mais significativo do que nas democracias europeias, de ministros que não provêm da classe política profissional. Isto é, ministros que são independentes.

Técnicos?

São na sua maioria técnicos que mais tarde seguem uma carreira para a política. Pertencem às bolsas de independentes do PSD e do PS. Participam nos programas de governo e depois vão para o governo. Esta é uma característica que marcou os governos de Cavaco, de José Sócrates, e o primeiro governo de António Costa.  Curiosamente, este governo de António Costa é o que tem um número maior de ministros políticos de todos os governos da democracia portuguesa.

E os deputados?

O parlamento português também teve sempre uma característica muito elitista, naturalmente, o parlamento não expressa a diversidade educacional da sociedade portuguesa. Apenas os deputados iniciais do PCP só para dar um exemplo não eram licenciados, advogados ou outros. Mas progressivamente a AR, como é natural noutras democracias, passou a ser o viveiro dos políticos profissionais. Ou seja, os chefes de partido, ou membros dos secretariados dos partidos têm no Parlamento e no Parlamento europeu, a sua base. É durante a oposição, do PS ou do PSD, que a luta pela sobrevivência do quadro do partido e os lugares de eleição são assegurados.

Acresce também que no caso português os deputados não têm autonomia política própria, ao contrário da democracia inglesa onde o deputado luta individualmente pelo seu lugar. Os deputados são escolhidos pela direção partidária e pelas comissões distritais, mas a grande fatia vem da direção partidária.

Como é que um deputado com formação em arquitetura, por exemplo, poderá ter capacidade para decidir leis que são fundamentais para a vida dos portugueses?

A função de deputado é uma função iminentemente política que não remete para a formação específica de cada deputado. Mas em primeiro lugar os deputados portugueses também têm uma alta escolaridade e a maior parte dos deputados continuam a ter profissões em que o direito ainda é determinante associado com as engenharias e depois poucas formações em ciências sociais e humanas.

Mas convém não esquecer que a maior parte destes deputados são políticos profissionais há bastante tempo.  Portanto, já perderam a ligação com as suas profissões especificas. Por exemplo, o actual ministro da saúde tem obviamente competência técnica, é médico, mas tem competência, essencialmente, por já ter sido secretário de estado da saúde e por ser dirigente do Partido Socialista.

Na maior parte dos casos os deputados têm competência para as próprias comissões parlamentares. Quando olhamos para a comissão dos negócios estrangeiros, por exemplo, o PSD tem um professor universitário de relações internacionais.

Com a entrada de novos partidos há um rejuvenescimento dos deputados. Verificamos que mesmo os novos deputados da IL e do Chega têm competência técnica para exercer a função.

Que análise fazem à participação da mulher na vida política?

Os partidos políticos portugueses têm tido uma oscilação a caminho da paridade. Os grandes partidos PS e PSD têm oscilado bastante, ou seja, muitas vezes mais próximos dos 40%, e muitas vezes menos.

Enquanto os partidos novos à direita não tiveram inicialmente esse tipo política interna que aponte para a paridade, é o caso do Chega e é também o caso da IL. Em parte, isso remete para as dimensões programáticas dos próprios partidos. Onde verificamos uma maior preocupação na dimensão paritária na elite política é na formação dos governos. Aí a evolução tem sido no governo, nomeadamente o governo quase paritário do Partido Socialista, quer a nível de secretários de estado quer a nível de ministros.

Apesar de haver essa preocupação e existir legislação para a paridade, a mentalidade ainda não mudou muito desde o 25 de abril. A cultura política não mudou, o que não facilita a vida das Mulheres

Não é apenas a vida política interna. A dimensão militante é menos propícia a qualquer participação. Qualquer análise da vida interna dos partidos, desde reuniões até à meia-noite e até outras dimensões, ilustram que quando a vida familiar é caracterizada pela igualdade a tendência para a masculinização da vida política é mais significativa, e isso reflete-se.

A pandemia ajudou a uma maior sensibilização para promover a participação das Mulheres na política?

Não é apenas dos políticos, é global na sociedade portuguesa, é um reflexo de uma tendência também mais global. Se é uma tendência nas universidades, é uma tendência também nas empresas, e na classe política. O estabelecimento de regras obrigatórias para os partidos políticos quer no que toca a género quer a outro tipo de situações. Um ponto fundamental da liberdade de política é a liberdade de formação de partidos políticos com dimensões ideológicas que possam muitas vezes negar essas características. Ainda recentemente o Tribunal Constitucional chumbou os estatutos do Chega, porque nãos os considerou de acordo com as normas gerais da constituição, o que é um pouco preocupante. Quando entramos na legislação interna dos partidos, quando pretendemos obrigar o PCP a fazer eleições diretas ou o Chega a fazer isto ou aquilo a estamos provavelmente entrar dimensões internas às estruturas organizativas internas dos partidos políticos.

Mas estes partidos não deviam ser mais democráticos?

A democracia e direitos fundamentais são para a comunidade política. Mas eu não vou impedir um partido fundamentalista religioso internamente. Vou impedi-lo de manifestações anti-democráticas na competência eleitoral, mas não na sua estrutura interna. Portanto, temos de ter algum cuidado mesmo com a sua dimensão programática.

Perante as mudanças dos partidos como é que olha para a crise do BE e o PCP?

Os sistemas partidários dependem muitas vezes de fatores externos à vontade eleitoral da cidadania. A democracia inglesa tem sofrido várias dinâmicas de crise, mas o sistema eleitoral condiciona de tal modo as atitudes eleitorais dos ingleses que um partido como o Chega ou o PCP não poderiam ter grande capacidade de crescimento na democracia inglesa. No caso português a democracia portuguesa e a sua legislação eleitoral têm uma enorme vantagem sobre o ponto de vista da democraticidade das atitudes da cidadania. Com poucos votos, mas concentrados um partido tem representação. Foi o caso do Chega, do IL e foi desta vez o caso do Livre, ou seja com 1,3% de votos novos partidos irrompem no parlamento. Quando olhamos para a evolução dos partidos em Portugal, a tendência à esquerda do leque político é para o declínio eleitoral do Partido Comunista, aqui não há nada de novo.  Em comparação com as democracias europeias e com a performance eleitoral dos partidos comunistas, a maior parte deles dissolveram-se ou entraram em colapso.

Mas em Portugal o PCP tem resistido

Em Portugal aparentemente é mais estrutural.  O PCP tem problemas junto dos segmentos mais jovens do eleitorado português, mesmo à esquerda do ponto de vista da sua militância e outros. Quanto ao BE tem um eleitorado muito flutuante em vasos comunicantes com o Partido Socialista. Os eleitores do BE já votaram no PS e descontente com o PS voltaram a votar no BE.  Portanto, esta perda eleitoral do BE não significa ser estrutural, pode subir eleitoralmente nos próximos tempos. Quanto a partidos como o Chega e a IL, sobretudo o Chega representa a chegada a Portugal destes partidos populistas de direita radical, que dão voz a segmentos importantes das sociedades europeias, populares que estão descontentes com os partidos políticos, que são mais sensíveis por exemplo com o declínio salarial que associam à imigração, que expressam valores mais conservadores do ponto de vista dos valores da família e outros.  Até agora estes segmentos da sociedade portuguesa que votavam em partidos conservadores no CDS ou no PSD, como partido de centro-direita, encontraram um porta-voz mais próximo das suas ansiedades.

O CDS perante este cenário de um partido populista à direita não tem hipótese nenhuma de recuperar?

Não é fácil, sobretudo com o aparecimento da IL, regressar à representação parlamentar. Muitas vezes não tem a ver com posições estratégicas. O principal responsável pelo desaparecimento eleitoral do CDS não foi apenas o Chega, foi o facto por exemplo do PSD não ter feito uma coligação pré-eleitoral com CDS. Há fatores que não têm apenas a ver com as atitudes do eleitorado, mas que tem a ver com a resposta dos partidos políticos.